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Nos 20 anos da Lei Maria da Penha, vale destacar: em briga de marido e mulher, a empresa pode e deve meter a colher

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No ano em que a Lei Maria da Penha completa duas décadas, o silêncio das organizações também precisa ser colocado em discussão.

Durante muito tempo, repetimos que “em briga de marido e mulher ninguém mete a colher”. O ditado atravessou gerações e ajudou a transformar a violência doméstica em um problema supostamente privado. Mas existe uma pergunta que as empresas não podem mais evitar: o que acontece dentro de casa deixa realmente de ser responsabilidade de todos quando o agressor atravessa a porta do local de trabalho?

Em agosto de 2026, a Lei Maria da Penha completa 20 anos. A data deve ser celebrada, mas também precisa provocar reflexão. A lei representou um avanço histórico no enfrentamento à violência contra a mulher. Entretanto, nenhuma legislação consegue, sozinha, modificar uma cultura construída durante tanto tempo. Para que a transformação aconteça, é necessário o envolvimento de toda a sociedade. E as empresas fazem parte dessa sociedade.

O homem que agride uma mulher em casa é o mesmo que, muitas vezes, chega pontualmente ao trabalho, participa de reuniões, alcança metas e é visto pelos colegas como um bom profissional. Pode ser educado com os clientes, prestativo com a equipe e até considerado um exemplo dentro da organização. Essa diferença entre a imagem profissional e o comportamento na vida privada ajuda a explicar por que tantas situações permanecem invisíveis.

É comum ouvirmos, depois que um caso se torna público: “Ninguém imaginava que ele fosse capaz disso”. Talvez ninguém imaginasse porque ainda insistimos em separar completamente comportamento e carreira. Mas carreira não é apenas currículo, cargo ou resultado. Carreira também é coerência, reputação e legado. A competência técnica pode abrir portas, mas são os valores e o comportamento que sustentam a caminhada. Respeito, responsabilidade, equilíbrio e convivência fazem parte do profissional que levamos para dentro de uma empresa — e também da pessoa que somos quando saímos dela.

É claro que não cabe à empresa investigar a vida particular de seus funcionários, substituir as autoridades ou fazer julgamentos precipitados. Meter a colher, nesse caso, não significa promover perseguições ou invadir a intimidade das pessoas. Significa assumir uma postura educativa, preventiva e responsável. Significa deixar claro que violência, assédio, discriminação e desrespeito não combinam com os valores divulgados pela organização.

Muitas empresas investem na construção de uma imagem ligada à ética, à diversidade e à responsabilidade social. Produzem campanhas, divulgam princípios e afirmam que as pessoas estão no centro de suas decisões. Contudo, esses valores precisam existir também quando o assunto é difícil. Não basta publicar uma mensagem no Dia Internacional da Mulher e permanecer em silêncio durante o restante do ano. A empresa pode e deve contribuir para o enfrentamento à violência contra a mulher e para o combate ao feminicídio.

A empresa é um dos espaços em que os adultos passam grande parte de seu tempo. É onde pessoas convivem, recebem orientações, desenvolvem comportamentos e constroem referências. Se as organizações treinam seus funcionários para atender clientes, liderar equipes, cumprir normas e representar uma marca, por que não podem também promover educação sobre respeito, equidade e enfrentamento à violência contra a mulher?

Esse trabalho precisa envolver especialmente os homens. Quando um profissional é conscientizado, ele pode rever comportamentos que antes considerava normais. Também passa a ter condições de interromper comentários preconceituosos, piadas ofensivas e atitudes que reforçam uma cultura de desvalorização da mulher. Uma mudança de cultura acontece quando o silêncio deixa de ser a resposta automática.

Sabe aquele comentário machista feito na hora do café? Pois é. Depois de ações de treinamento e conscientização, os próprios homens podem ser os primeiros a interromper esses comentários pejorativos e a atuar na defesa do respeito às mulheres.

Além da prevenção, as empresas podem criar políticas internas claras, oferecer canais confidenciais de escuta, preparar lideranças e equipes de Recursos Humanos e encaminhar mulheres em situação de violência para a rede especializada de atendimento. Também podem avaliar possibilidades de apoio e flexibilização, sempre respeitando a vontade, a segurança e a privacidade da mulher. Acolher não é expor. Ajudar não é decidir por ela.

Outro ponto importante é a independência financeira. Muitas mulheres encontram dificuldade para romper um ciclo de violência porque dependem economicamente do agressor. Ao promover oportunidades de contratação, desenvolvimento e permanência de mulheres no mercado de trabalho, as organizações também colaboram para ampliar sua autonomia e sua capacidade de escolha. Outra ação importante seria oferecer educação financeira às mulheres, contribuindo para ampliar sua autonomia e sua capacidade de tomar decisões.

Aos 20 anos, a Lei Maria da Penha nos lembra que combater a violência contra a mulher não é uma responsabilidade exclusiva da vítima, de sua família ou do poder público. É uma responsabilidade coletiva. Escolas, igrejas, meios de comunicação, comunidades e empresas precisam reconhecer seu papel nessa mudança.

Uma organização não deve esperar que um caso ganhe os jornais para descobrir que o comportamento de um funcionário também pode atingir colegas, famílias, a própria empresa e toda a sociedade. Agir somente depois do escândalo é reação. Construir consciência antes que a violência aconteça é prevenção.

Do ponto de vista da gestão de carreira, fica uma reflexão: que reputação constrói um profissional que entrega resultados, mas não pratica o respeito? Não existe carreira verdadeiramente bem-sucedida sem crescimento humano. Competências abrem portas, mas atitudes constroem reputação. No final, não somos lembrados apenas pelo cargo, mas pela forma como tratamos as pessoas e pelo legado que deixamos.

Por isso, neste aniversário da Lei Maria da Penha, deixo duas provocações. Para as empresas: que tipo de cultura vocês ajudam a construir? E para cada profissional: sua trajetória é construída apenas por resultados ou também por valores?

Na luta contra a violência contra a mulher, a neutralidade também comunica. Em briga de marido e mulher, a empresa pode — e deve — meter a colher.

Reflita sobre isso e sobre a carreira e o legado que você está construindo.

Prof. Ricardo Machado
Professor universitário • Gestor de carreira • Escritor

Inatagram: @prof.ricardomachado
WhatsApp: (21) 98300-4352

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